O medo

TENHA MEDO DO QUE O GOVERNO PODE FAZER COM VOCÊ. NO BRASIL GOVERNAR É SATISFAZER NECESSIDADES FISIOLÓGICAS.

5 de nov. de 2011

A BRUXA ESTÁ SOLTA

Foi assim... A bruxa se soltou. De repente, ainda no início da governança, Nelson Jobim fez tudo o que podia e não devia para ser demitido. Tinha tão pouco prestígio que nem isso ele conseguiu. Acabou pedindo para sair do Ministério da Defesa.

Depois, foi aquele barraco lá na Casa Civil, transformada num grande escritório de consultorias mágicas por Antonio Palocci.

Em seguida, deu-se o rolo grosso no Ministério dos Transportes de Valores do PR que acabou com o pedido de demissão de Alfredo Nascimento que padeceu do medo infundado de levar uma vassourada.

Veio depois, o escândalo dos negócios agropeculiares da Agricultura de Michel Temer e Wagner Rossi foi para o espaço. Na sequência, Pedro Novais saiu aos trancos e barrancos da Pasta do Tunguismo.

Agora foi a vez de Orlando Silva, o herdeiro de Agnelo, perder a boquinha, jurando inocência. Afora Nelson Jobim que debochou das "fraquinhas" Ideli e Gleisi, os outros pediram para sair do governo sob suspeita de corrupção. Todos se mandaram antes de sofrer uma humilhante e merecida varredura. Pontos. De reticências.

Vem aí Carlos Lupi, aquele que conversava com Brizola no tempo em que o Caudilho falava e ia alimentar sua azia comprando jornais na banca de revistas do agora ainda titular da Pasta do Trabalho. Seu tempo está contado e periga não ultrapassar sequer o último desses três reticentes pontinhos.

Lupi está enrolado em denúncias de boas e promíscuas ligações com ONGs, como todos os outros cinco que não esperaram pelo espanador de Dilma e saíram antes que a presidenta virasse faxineira e os varresse da face do governo. Pontos.

Pontos de reticência, porque outros tantos só não foram para os cafundós do Judas para ver aonde foi que o diabo perdeu as botas, porque Lula da Silva, Michel Temer, aloprados genéricos, guerrilheiros majoritários e similares não deixaram que a primeira-mulher-presidenta se transformasse mesmo em faxineira e varresse também muitos ilustres amancebados com ONGs, empreiteiras, gente que entende de licitações, terceirizadores, lobistas, consultores e doadores de campanha.

Tivesse Dilma mandado as heranças de Lula para as cucuias e Paulo Bernardo das Comunicações já teria saído da vida pública e ido parar na privada; sua Gleisi Hoffmann já teria devolvido o que ganhou a mais quando desenfurnou e se abrigou na Casa Civil.

A indestrutível Ideli Salvatti não teria salvo nem mesmo a própria pele nas suas relações institucionais e profícuas com as ONGs de barriga-verde; Aninha de Hollanda, já teria zarpado da nau sem rumo da Cultura; Negromonte, o Mário aquele que fica atrás do armário, já teria ido ver o gado pastar no campo e não teria mais nada a ver com as coisas das Cidades...

Tivesse ela mandado as heranças luláticas às favas e outros, muitos outros, não por corrupção, propina e alternativas quetais, mas por absoluta inépcia e profunda inércia, já estariam na melhor das hipóteses embaixo do tapete, à espera de alguém que soubesse de fato e de direito compulsório usar devidamente uma vassoura.

Nem precisaria ser uma bruxa para voar a esse ponto, a essas alturas. Agora, pode ser tarde. Afinal, muito mais que heranças malditas ou benditas, um tumor na laringe tem força de convencimento e poder de chantagem.

Agora, sob o signo de câncer que ronda o Palácio, pode ser tarde para Dilma consolidar a imagem de mulher-dinamite que conquistara na capa da revista Newsweek e de 22ª criatura mais poderosa do mundo Forbes.

Como se vê, Dilma não demitiu do seu governo nem mesmo ao Lula da Silva que jamais desencarnou. Ele está saindo - nem é por sua livre e espontânea vontade - sai por motivo de força maior.

Se fosse portador de uma carteira de trabalho, tal alegação poderia até redundar numa boa indenização.

Não é nada, não é nada, são mais de 40 anos de labuta incessante às portas de fábricas, palanques, salas de conferências, rampas e gabinetes palacianos. Afora 31 dias de porão da ditadura, porque estes já foram indenizados.

Isso tudo pode ser, no entanto, para Dilma apenas o começo de uma reforma ministerial light em janeiro.

Um remelexo no qual, em razão do silêncio obrigatório de Lula e até das mal traçadas linhas de seu criador em dias de palanque e programas de rádio e TV, que  Dilma possa consagrar sua imagem como a única e grande candidata do PT à reeleição em 2014.

Não porque tenha sido uma dama de ferro, uma primeira-mulher poderosa por natureza, mas porque se fez, pela ironia do Destino, uma presidenta forte pelo inusitado e pelo doloroso enfraquecimento e inevitável redução do voo das moscas que a rodeiam.

RODAPÉ - Trocar Jobim por Amorim, não é mais que uma rima; Palocci por Gleisi, Nascimento por Passos, Wagner Rossi por Mendes Ribeiro, Novais por Gastão, é contar seis por meia dúzia. Já o mexe-mexe de Orlando por Aldo no Esporte é apenas mudar de PCdoB para o PCdoB. Se você não espera nada da anunciada reforma ministerial de janeiro, você está redondamente certo. É dessa reforma que não vai sair nada mesmo.