O medo

TENHA MEDO DO QUE O GOVERNO PODE FAZER COM VOCÊ. NO BRASIL GOVERNAR É SATISFAZER NECESSIDADES FISIOLÓGICAS.

31 de out de 2015

Porque hoje é sábado / Despertei e... Bingo!
Não há como ver melhor / a perspectiva do domingo.

PARADO NO AR, BANCANDO O BEIJA-FLOR

Esse pequeno prolegômeno, à moda Vinícius, sem a sua poesia, carrega o que pode parecer pessimismo, mas não passa de desencanto. E já explico e justifico.

Eu ontem fui dormir inquieto. Experimentando uma espécie de vazio por saber que minha prática cotidiana de saber dos fatos, cheios de provas e ainda assim distantes das penas da lei e da justiça, persistirá não apenas neste domingo, mas por um largo tempo em que preciso cultivar, nem tanto a tolerância, mas as forças da paciência que se precisa ter nesse país arrombado e entregue ao crime organizado que virou Estado.

VOO LIVRE

Experimento agora e assim estarei, quando você terminar de ler este texto, experimentando como que uma sensação de vazio, por saber que cada palavra pode ser valorizada pela indignação; que cada linha, cada parágrafo, pode atrair um pouco de atenção apenas porque tem muito do que é o sentimento dos homens de boa vontade.

Esta ideia de vazio persiste, mas me anima a bater asas e voar e voar meu voo livre, pois me dou conta de que cada ponto, cada vírgula e muitas reticências podem juntar-se à repulsa e à raiva dos brasileiros comuns que sabem somente de uma verdade: que não existe silêncio a respeito do que se tornou costume nessa pátria desapropriada pelas  mãos que balançam o berço de uma república violentada, corrompida e constrangida.

E que o burburinho não é o bastante para se estabelecer justiça e igualdades sociais numa nação que está ardendo e que está doendo muito.

PERSPECTIVA DO DOMINGO

Minha inquietação de ontem é a deste sábado e continuará sendo na perspectiva do domingo e dos domingos...Há notícias, processos, manobras, propinas, corrupção, operações de compra de almas, de vendas da coisa pública e há operações da polícia que correm atrás dos que cometem a política...

E, de repente, tudo parece cair na mesmice e acontece um silêncio geral enganador, permissivo, consentido pelo que há de cansativo no regime de Grande Desordem que foi estabelecido pelos construtores dessa democracia de gabinetes, verdadeiros porões de conluios, de conspirações, de arranjos e desarranjos.

Tudo se torna fisiológico. E os larápios da nação só se dão por contentes quando realizam suas necessidades fisiológicas. Que bosta essa democracia deles! Dá vontade de esfregar na cara deles. Desculpem o desabafo, mas porque hoje é sábado, eu acordei com a real perspectiva do domingo.

E ela me diz que foi só por um pouco de tempo que uma boa parte da gente boa desse país se apercebeu daquilo que escrevi e escrevo; que tantos e tantos redatores e jornalistas e comentaristas e formadores de opinião de maior espectro e alcance disseram sobre o que os aproveitadores têm feito com o povo e com a vida desse país, nos 30 anos perdidos de uma redemocratização mais do que companheira, comparsa.

A perspectiva do domingo me diz que a desordem é tanta, que a banalização do escândalo e da malandragem é tanta que se tornou uma espécie de combustível para se fazer a travessia da vida nessa grande aventura que se tornou o Brasil.

DUAS DEMOCRACIAS NÃO FAZEM UMA

Eu hoje acordei com a sensação de que os processos, os julgamentos, as prisões não bastam e não bastarão nunca.

As políticas de combate aos políticos que comandam essa democracia de porta giratória, parecem sempre errar o alvo. Se você entra por um lado, dá de cara com a democranal- aquela em que eles ganham no tribunal; se você entra pelo outro, acaba na sua democracia, a que vai parar na delegacia. E sei então que nesse regime de "coalizão pela governabilidade" imposto há 13 anos nessa terra onde em se plantando tudo dá, essas duas democracias não fazem uma.

TODO O PODER

E me acordei assim: sentindo que por terrível que possa parecer, a legalização do regime de roubar e deixar roubar pode ser estabelecida a qualquer momento, pelos donos dos poderes constituídos.

É que a solução das maiores questões, dos maiores direitos e obrigações desse país, acabou na dependência de quem domina o sistema, a tal democracia de gabinetes: no Executivo, Dilma Vana e tudo que ela traz dentro de si; no Legislativo, Eduardo Cunha na Câmara, Renan Calheiros, no Senado e os políticos de todos os partidos em todas as instâncias - governos dos Estados e prefeituras e diretórios partidários; no Judiciário, as cortes menores de tribunais de todos os tamanhos e feitios até à Corte de Lewandowski e seus 11 homens para cada sentença...

E tem ainda o 4° Poder - a Imprensa mambembe que segue a linha editorial exercendo a plena liberdade do patrão; e o 5° Poder instituído, o governo invisível dos tu/barões de indústria, dos terceirizadores de serviço e dos mercadores de todos os templos de toma lá, dá cá.

PARADO NO AR

E porque hoje é sábado, eu despertei com essa perspectiva do domingo sem outra expectativa do que senão exercitar meus escritos como se eles fossem capazes - pobres coitados - de deter essa Grande Desordem paulatinamente implantada e hoje estabelecida.

Sei, no entanto, que posso me iludir e por isso espero que meus textos, virtual e modernamente chamados de postagens, tenham o voo do beija-flor que leva no bico suas gotas de esperanças para apagar o incêndio na floresta. Faço a minha parte.

Quem sabe a primavera atraia uma revoada de colibris brasileiros, daqueles que voam com muito orgulho e muito amor e que não desistem nunca. Eu me acordei assim e foi a única resposta que me ocorreu quando, ao colocar uma vez mais os pés no chão, me perguntei: - E agora, o que fazer?

Sei lá, estou parado no ar. Já comecei de novo a bancar o beija-flor.