O medo

TENHA MEDO DO QUE O GOVERNO PODE FAZER COM VOCÊ. NO BRASIL GOVERNAR É SATISFAZER NECESSIDADES FISIOLÓGICAS.

17 de fev de 2015

O CHARME

Ainda estou com o avião na cabeça.

Saí de Porto Alegre e acordei em Congonhas; da garoa que, por dez minutos, fechou o céu de São Paulo para pousos e decolagens, me reencontrei com Brasília às 21 horas e alguma coisinha.

Eu gosto de voar, já disse. Ainda mais, quando o avião voa por mim.

Lá no alto, dentro daquele tubo de aço, cheio de poltronas incômodas, corredor estreito e sanitários constrangedores, não faço amigos e nem influencio pessoas, apenas observo coisas e loisas.

Fico até pensando por que razão as poltronas são menores que os nossos assentos. Vejo, entre uma página e outra da revista de bordo, que os passageiros gostam de pedir besteiras para as aeromoças.

E noto como as moçoilas viajoras reparam no quepe do comandante, na gravata, no sorriso do pilotaço, no inglês fluente que o comandante lê de improviso, no início e no fim de cada viagem.

E aí, me surpreendo a me perguntar, por que é mesmo que os comandantes de aeronaves são tão charmosos para o nosso imbatível ex-sexo frágil.

Será por que pilotam aqueles mastodontes de centenas de toneladas por entre as nuvens, como se fossem enormes andorinhas solitárias que não fazem verão?

E pulo das aeronave para o convés de um transatlântico. Penso então nos comandantes de navios. Eles também pilotam toneladas de aço e ferro sobre as ondas, como se os transatlânticos fossem meras pranchas de surfe, tal o domínio que exercem sobre os oceanos. E usam quepes e fardas bonitas também.

E são charmosos. As mulheres verdes e maduras, suspiram por eles. Até o Roberto Carlos, vestido de comandante, parece mais bonito e charmoso que o marinheiro Popeye.

E, nessa viagem virtual que os passeios me proporcionam, me mando dos mares e dos céus, para as rodovias que rasgam O meu país de ponta a ponta.

Vislumbro os motoristas dessas super-carretas que transportam, com suas dezenas de toneladas, o que há e o que não há pelas estradas desse Brasil de fora a fora.

Elas são as molas propulsoras do progresso.

Eles pilotam esses mastodontes de rodas enormes, de ferragens monumentais, de confortáveis e fantásticas cabines, como se fossem carrinhos utilitários 1.0 que nem o meu Nissan, o cascudo mais econômico da história desse país. Esses caras são a mais perfeita tradução do que o Hino Nacional exalta; isso é que é conquistar com braço forte.

E, no entanto, não vejo nos olhos das senhoras e das garotas, o mesmo brilho de encantamento pela figura do piloto rodoviário. Não, brasileiras e brasileiros, aquelas que vão de carona, quando vão, não chegam a ser sequer românticas. São bonitas por natureza, puro veneno, mas sem nenhum charme.

Cadê então o charme que as mulheres percebem no piloto do avião, no timoneiro do transatlântico?!? Tá, já sei: está na farda. No quepe, na gravata, nas dragonas, no conjunto da obra.

O piloto de caminhão não usa farda. E nem precisa. Sabe lá você por que razão? Pois em verdade, em verdade, já digo: é que comandantes de aeronaves e de navios, são obrigados pelos patrões a se vestirem como eles mandam.

Já o artista da boleia é dono do seu veículo, do seu nariz, da roupa que veste. Não precisa se fardar para obedecer a ninguém. Na vida que se leva nesse mundo, quando o homem é dono de si mesmo, o que ele menos precisa é ter charme.

Pensem nisso, minhas queridas. E vocês, meus queridos, pensem também. Mas, não se metam agora a sair comprando caminhões por esse Brasil afora.